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Seminário Missionário Arquidiocesano

“Redemptoris Mater” de Brasília

 

 

Esquemas de Filosofia Zubiriana

 

 

 

Filosofia de Deus

 

(Apostilas)

 

 

Pe. Francisco-Xavier Sotil Baylos

 

 

2003

 

 

 

 


I

 

INSUFICIÊNCIA DAS VIAS TRADICIONAIS PARA JUSTIFICAR INTELECTIVAMENTE

A EXISTÊNCIA DE DEUS

 

 

 

 

A.  Insuficiência das vias “cósmicas” para justificar intelectivamente a existência de Deus.

 

 

1.     Em que consistem as vias cósmicas

 

a.   Vias cósmicas para justificar intelectivamente a existência de Deus são aquelas que argumentam a partir da realidade inteira considerada simplesmente como “natureza” ou “cosmos”.

b.   Pelo que diz respeito ao homem, estas vias não tomam em consideração a dimensão do homem pela qual ele é essencialmente diferente das outras coisas reais; só tomam em consideração a dimensão cósmica ou natural do homem pela qual ele é uma parte a mais da natureza ou do cosmos, ou seja, uma coisa natural a mais entre as outras.

c.   Estas vias cósmicas para justificar intelectivamente a existência de Deus têm muitas variantes; as mais célebres são “as cinco vias” de S. Tomás de Aquino:

=   Primeira via

#  Consta, e é certo, que algo se move (muda) no mundo e que tudo aquilo que se move (muda) se move (muda) por outro, e este por outro, etc.; com efeito:

+   Nada se move (muda) senão está em potência para ser movido (mudar), e nada move (muda) algo senão está em ato para mover (mudar); mover (mudar), com efeito, é tirar da potência ao ato.

+   Mas, como aquilo que move (muda) passa de estar em potência para mover (mudar) a estar em ato para mover (mudar), e como não é possível que uma coisa esteja ao mesmo tempo em ato e em potência na mesma dimensão, aquilo que move (muda) também é movido (mudado).

#  Mas nisto não é possível proceder ao infinito; portanto é necessário concluir que há um “primeiro motor” que não se mova (motor imóvel), o qual todos chamam de Deus.

=   Segunda via

#  Encontramos nas coisas sensíveis uma ordem de causas eficientes: as coisas sensíveis não têm a sua causa eficiente em si mesmas, mas em outro, ou seja, toda coisa é produzida por outra.

#  Mas é impossível proceder ao infinito nas causas eficientes; portanto é necessário pôr uma “primeira causa eficiente”, a qual todos chamam de Deus.

=   Terceira via

#  Encontramos coisas que tanto podem ser quanto podem não ser: todas aquelas coisas que são geradas e que se corrompem; mas tudo aquilo que pode ser e pode não ser tem que ter em outro a causa pela qual efetivamente é; mas, como não é possível um processo de causas ao infinito, tem que haver algo que necessariamente tem que ser; agora bem, aquilo que é necessário ou tem a causa da sua necessidade em si mesmo ou em outro.

#  Mas é impossível proceder ao infinito nos necessários que têm a sua causa em outro; portanto tem-se que pôr um “primeiro necessário” que seja necessário por si mesmo, o qual todos chamam de Deus.

 

=   Quarta via

#  Nas coisas há graus: coisas mais ou menos boas, mais ou menos verdadeiras, mais ou menos belas, etc.; o mais e o menos, porém, dizem-se das coisas segundo se aproximem mais ou menos a algo que é maximamente; existe, portanto, algo que é veríssimo e ótimo e belíssimo e, por conseguinte, maximamente ente.

#  Mas aquilo que se diz que é maximamente em algum gênero é causa de todos os que estão naquele gênero; existe, portanto, algo que é causa do ser e da bondade e de qualquer outra perfeição em todas as coisas; este ser o chamamos de Deus.

=   Quinta via

#  Vemos que os seres que carecem de conhecimento, como os corpos naturais, agem por um fim.

#  Mas os seres que não têm conhecimento não tendem a um fim senão dirigidos e ordenados por algum ser inteligente; portanto existe um ser inteligente pelo qual todas as coisas naturais se ordenam a um fim; este ser o chamamos de Deus.

 

 

2.     O ponto de partida das “cinco vias” é radicalmente insuficiente, porque não é nem manifesto nem firme nem constatável; com efeito, as “cinco vias” não partem de “fatos” cósmicos, como pensa S. Tomás, mas duma das possíveis “interpretações metafísicas” dos fatos cósmicos: a de Aristóteles.

 

a.   Vejamo-lo em cada uma das cinco vias.

=   Primeira via

#  Parte do presumível fato de que o movimento (mudança) é um estado do ente móvel: o ente móvel passa de estar em potência a estar em ato.

#   Agora bem, isto não é um “fato”; isto é a problemática interpretação aristotélica do fato do movimento (mudança) da realidade cósmica, coisa muito diversa.

+   O único “fato” nu e cru é o movimento (mudança) do cosmos: de fato as coisas se movem (mudam).

+   Mas não é um fato que o movimento (mudança) das coisas seja “sem mais” um “estado do ente móvel” nem que consista “formalmente” na passagem da potência ao ato.

=   Segunda via

#  Parte do presumível fato de que nas coisas cósmicas há uma ordem de causalidade eficiente, ou seja, de que toda coisa é produzida por outra.

#  Agora bem, a causalidade eficiente não é nenhum “fato”, mas a interpretação metafísica aristotélica da apreensão primordial do cosmos.

+   Prescindindo das ações humanas, pode-se mostrar um só exemplo de causalidade eficiente “dado” na apreensão primordial do cosmos? Exemplos de sucessões, até regulares, muitos; mas de causalidade eficiente…

+   O ocasionalismo cósmico, que defende que Deus intervém diretamente em todo fato cósmico, é uma outra interpretação metafísica possível das coisas apreendidas primordialmente.

=   Terceira via

#  Parte do presumível fato de que as coisas que são geradas e que se corrompem não são necessárias, mas só possíveis (=contingentes).

#  Agora bem, o necessário e o contingente não são um fato dado na apreensão primordial do cosmos, mas uma interpretação do fato cósmico de que há coisas que são geradas e que se corrompem: na apreensão primordial do cosmos não nos é dada a não necessidade (=contingência) das coisas que são geradas e se corrompem, mas só nos é dado que as coisas são assim e mais nada; o resto são só interpretações, que podem ser muito legítimas, mas só interpretações.

=   Quarta via

#  Parte do presumível fato de que há umas coisas que têm mais “entidade” que outras, ou seja, de que há “graus” de entidade nas coisas.

#  Agora bem, os graus do ser não são um fato, mas uma interpretação muito problemática dos fatos.

+   Se - mais uma vez - prescindimos da realidade humana, é verdade que a apreensão primordial do cosmos nos dá de fato distintos graus de ser no cosmos?

+   Mais ainda: que os graus inferiores se fundamentem nos superiores e, portanto, que os pressuponham, é algo muito problemático; existe também a possibilidade duma evolução que faça brotar o superior desde o inferior...

=   Quinta via

#  Parte do presumível fato de que na natureza há uma ordem de finalidade.

#  Agora bem, isto não é um fato, mas uma teoria.

+   Aparte das ações humanas - mais uma vez -, que pelo menos parcialmente têm uma certa finalidade, pode-se falar de finalidade no cosmos meramente material?

+   Certamente é um fato que no cosmos há uma certa convergência de processos; mas não é um fato que essa convergência consista formalmente numa ordem de finalidade.

b.   Em conclusão

=   A base da discussão de S. Tomás de Aquino não são os fatos, mas a metafísica de Aristóteles; está tão convencido de que é a metafísica do sentido comum, e, portanto “a” metafísica, que acaba por identificá-la com os fatos dados na apreensão primordial do cosmos.

=   Agora bem, essa identificação, além de ilícita, falha por omissão.

#  A diferença essencial que há entre as ações humanas e os outros fatos cósmicos não tem nenhuma função na concepção aristotélica do cosmos; e isso é muito grave.

#  Daí que diversas vezes, propositalmente, temos feito exceção das ações humanas; a visão do homem como uma coisa natural a mais, sem considerar a peculiar posição do homem no cosmos, é uma visão metafísica mais do que discutível.

#  Acontece que a metafísica de Aristóteles nem é a metafísica do sentido comum nem muito menos um dado da apreensão primordial do cosmos...

 

 

 

 

 

3.     O ponto de chegada das “cinco vias” é radicalmente insuficiente porque não chegam a Deus “enquanto Deus”.

 

a.   As cinco vias de S. Tomás de Aquino chegam a cinco primeiros: o motor imóvel, a primeira causa eficiente, o ente necessário, o primeiro ser, a primeira inteligência; agora bem, esses cinco primeiros identificam-se num mesmo ente?; ter-se-ia que provar; no caso que se provasse, ter-se-ia provado “sem mais” que esse único ente supremo é “formalmente” Deus enquanto Deus?; ter-se-ia que provar.

b.   Isto viu-o claramente B. João Duns Escoto; por isso construiu em duas fases a sua via para justificar intelectivamente a existência de Deus:

=   Primeiramente, partindo dos entes finitos sensíveis (que também não são “fatos” cósmicos!), acha poder justificar a existência dum ente que é primeiro como eficiente (primum effectivum), como fim (primum finitivum), e como exemplar de entidade (primum perfectivum).

=   Em segundo lugar, tenta justificar intelectivamente que esse primeiro ente é infinito e que, portanto, (segundo ele!), é Deus.

c.   Pois bem, a identificação do ente infinito com Deus nem esfrega aquilo que se trata de justificar.

=   Com efeito, B. João Duns Escoto ter-nos-ia que justificar intelectivamente que, quando nos referimos a Deus, estamos nos referindo “primariamente e formalmente” a um ente infinito.

=   Pois bem, isso é injustificável intelectivamente.

B. João Duns Escoto busca a “essência metafísica”, o conceito metafísico primário do ente divino; acredita achá-lo na infinitude.

#  Agora bem, aquilo que entendemos todos por Deus, quando buscamo-lo, não é precisamente a sua essência metafísica, mas algo mais simples e radical que é aquilo que primariamente e formalmente constitui o que é “Deus enquanto Deus”: a realidade pessoal “última” (a quem dar acatamento), que é a fonte “possibilitante” de todas as possibilidades que temos de realizar-nos a nós mesmos (a quem suplicar essas possibilidades) e que é o poder “impelente” radical que nos impele a ter-nos que realizar inexoravelmente a nós mesmos (em quem se amparar e refugiar-se para receber esse poder impelente radical).

#  É óbvio, então, que o ente infinito de B. João Duns Escoto não é “formalmente” esse Deus enquanto Deus.

+   Primeiro, porque, inclusive dentro duma idéia metafísica de Deus, não é evidente que a essência metafísica de Deus seja a infinitude da sua entidade.

+   Segundo, porque, no melhor dos casos, a presumível infinitude entitativa competiria a Deus por ser realidade pessoal última, e não ao invés; ou seja, Deus, no melhor dos casos, seria infinito por ser Deus, e não Deus por ser infinito.

+   Terceiro, porque, para que Deus seja Deus enquanto Deus, não basta que seja só a realidade pessoal última; é necessário que seja “unitariamente e formalmente” a realidade pessoal última e possibilitante e impelente, tal como acabamos de descrever; pois bem, é óbvio que a mera infinitude entitativa não é sem mais tudo isso.

 

 

 

B.  Insuficiência das vias “antropológicas” para justificar intelectivamente a existência de Deus.

 

 

1.     Em que consistem as vias antropológicas

 

a.   Vias antropológicas para justificar intelectivamente a existência de Deus são aquelas que argumentam a partir do homem considerado como realidade completamente diferente das demais realidades cósmicas.

b.   Estas vias adotam diversas modalidades segundo a dimensão do homem da qual partem na sua argumentação; resumimos brevissimamente três delas.

=   S. Agostinho parte da inteligência humana e diz: o homem possui verdades; agora bem, toda verdade que possui o homem apóia-se necessariamente em “A Verdade” (na Verdade Subsistente) que habita nele, ou seja, Deus.

=   Kant parte da vontade humana e diz: o homem não só quer coisas, mas, acima de tudo, quer imperativamente e categoricamente o dever pelo dever; pois bem, isso seria impossível se não existisse na realidade o Bem em si, o Bem Ótimo, ou seja, Deus.

=   Schleiermacher parte do sentimento humano e diz: o homem tem um sentimento irracional de dependência incondicional do infinito; pois bem, esse sentimento só pode ser devido a uma realidade infinita, ou seja, a Deus.


2.     O ponto de partida destas vias antropológicas é radicalmente insuficiente; com efeito, não só não partem de “fatos” antropológicos, como pensam S. Agostinho, Kant e Schleiermacher, mas nem sequer são algo “viável”, porque têm três defeitos radicais.

 

a.   “Parcialidade”.

=   Não partem do homem inteiro, mas só de “dimensões parciais” do homem: a inteligência, a vontade e o sentimento; a realidade humana una e única por inteiro não aparece nas vias de S. Agostinho, de Kant, e de Schleiermacher.

=   Por acaso o homem precisa e busca Deus como fundamento “só por e para” ser muito inteligente ou querer muito ou sentir-se dum jeito determinado?

b.   “Dualismo”.

=   S. Agostinho

#  Na realidade não parte da inteligência humana, mas do dualismo radical entre “a” verdade e “as” verdades, ou seja, parte de “a” verdade como de algo que habita no interior do homem, contraposta a “as” verdades do homem, as quais, precisamente pela sua pluralidade, seriam só “verossímeis”, no sentido etimológico do termo.

#  Pois bem, isso não é um fato, mas a filosofia de Platão e de Plotino!

=   Kant

#  Na realidade não parte da vontade humana, mas do dualismo radical entre a vontade empírica (o homem quer objetos empíricos) e a vontade inteligível (o homem quer o imperativo categórico moral).

#  Pois bem, onde está dito que esse dualismo de vontades no homem seja um fato?

=   Schleiermacher

#  Na realidade não parte do sentimento humano, mas do dualismo radical entre o sentimento incondicional (que tem como termo algo “não dado”: a infinitude) e o sentimento condicional (que tem como termo algo “dado”: as coisas, os demais homens e a si  mesmo).

#  Pois bem, onde está dito que esse dualismo de sentimentos no homem seja um fato?

c.   “Distinção antitética homem/cosmos”.

=   Partem do homem não só não considerado como mera coisa natural, mas concebido formalmente como algo “completamente distinto” de toda coisa natural, ou seja, como em si mesmo e por si mesmo independente de toda realidade cósmica.

=   Mas, como acontece que o homem, queira-o ou não, está no cosmos, ao opô-lo radicalmente a este, o que se faz de fato é cortar a realidade humana em dois pedaços: um pedaço mais ou menos integrado no cosmos e outro pedaço que vai contra o cosmos ou, pelo menos, sem ele.

=   Trata-se, em definitiva, duma ilícita “segregação” do homem da realidade cósmica, e duma ilegítima “antítese” homem/cosmos, às quais conduz inexoravelmente o dualismo interno do qual partem estas vias antropológicas para justificar intelectivamente a existência de Deus.

 

 

3.     Precisamente por partir de algo “inviável”, essas vias antropológicas conduzem, no seu ponto de chegada, a um conceito radicalmente insuficiente de Deus.

 

a.   A segregação antitética do homem a respeito do cosmos, feita por estas vias antropológicas, faz que conduzam a um Deus (a verdade subsistente, o bem ótimo e o infinito) que “de seu” não tem referência ao cosmos, mas só ao homem, ou seja, conduzem a um Deus que é formalmente uma realidade segregada do cosmos.


b.   É certo que tanto S. Agostinho, quanto Kant e Schleiermacher, num segundo passo, integram Deus e o cosmos; mas precisamente aí está a questão: que “têm que” integrá-los num segundo passo, porque “de seu” não estão integrados.

=   Só depois de ter chegado a Deus, S. Agostinho, Kant e Schleiermacher tornam desde Deus ao cosmos (cada um do jeito dele), para integrar o cosmos nesse Deus.

=   Isso quer dizer, portanto, que, segundo eles, Deus é “de seu” uma realidade justaposta ao cosmos, e só ulteriormente convergente (seja como for), com Ele.

c.   Agora bem, o Deus ao qual todos nos referimos, como temos dito acima, não é só possibilitante e impelente, mas unitariamente último, ou seja, não é só a fonte “possibilitante” de todas as possibilidades que temos de realizar-nos a nós mesmos e o poder “impelente” radical que nos impele inexoravelmente a ter que realizar-nos a nós mesmos, mas também a realidade pessoal “última”. 

=   As vias cósmicas chegam, no melhor dos casos, a um Deus último, mas não possibilitante e impelente; as vias antropológicas chegam, no melhor dos casos, a um Deus possibilitante e impelente, mas não último; em definitiva, nem umas nem outras chegam a Deus enquanto Deus.

=   Por conseguinte, temos que tentar uma nova via para justificar intelectivamente a existência de Deus que tenha unitariamente estas duas características essenciais:

#  Tem que partir de um “fato” que abranja constitutivamente o homem e o cosmos.

#  Tem que chegar a justificar intelectivamente a existência de Deus enquanto Deus, ou seja, a existência da realidade pessoal “última” (a quem dar acatamento), que é fonte “possibilitante” de todas as possibilidades que temos de realizar-nos a nós mesmos (a quem suplicar essas possibilidades) e que é o poder “impelente” radical que nos impele inexoravelmente a realizar-nos a nós mesmos (em quem se amparar e refugiar-se para receber esse poder impelente radical).


II

 

UMA VIA

UNITARIAMENTE CÓSMICO-ANTROPOLÓGICA

PARA JUSTIFICAR INTELECTIVAMENTE

A EXISTÊNCIA DE DEUS:

A VIA DA RELIGAÇÃO

DO HOMEM À DEIDADE

 

 

 

 

A.  Em cada um de seus atos, ao longo de todo o decurso de sua vida, o homem inexoravelmente vai realizando a figura concreta da sua realidade vital pessoal, ou seja, a personalidade da sua personeidade.

 

 

1.     Enquanto modo de realidade, o homem é uma realidade vivente pessoal.

 

a.   O homem é uma realidade “vivente”.

=   O homem é esse modo de realidade que chamamos de “vida”: é uma realidade viva, uma realidade vivente.

=   Efetivamente, o homem tem os dois momentos próprios e exclusivos de toda realidade vivente: uma certa independência do seu meio e um controle específico sobre este.

=   Estes dois momentos são a plasmação daquilo que é o constitutivo de toda realidade vivente e do homem enquanto realidade vivente que ele é: ser um “si mesmo”, um autós, que dizer, ser uma realidade que “autopossui-se”, que se possui a si mesma.

#  Toda realidade, também meramente material, como uma nuvem, por exemplo, “tem” um “conteúdo” real e atua, tanto ativa quanto passivamente, em virtude desse “conteúdo” real que “tem”.

#  Mas só a realidade vivente, como uma ameba, por exemplo, “possui” o “conteúdo” real que tem e executa ações, tanto ativas quanto passivas, formalmente dirigidas a esse “conteúdo” real que “possui”, ou seja, é “si mesma” (autós) e atua formalmente por si mesma e para si mesma; em outras palavras: “possui-se a si mesma”, “auto-possui-se”.

b.   O homem, porém, não é uma mera realidade vivente, mas uma realidade vivente “pessoal”.

=   Efetivamente, o homem é uma realidade vivente cujo conteúdo essencial inclui a sua inteligência senciente, o seu sentimento afetante e a sua vontade tendente.

#  O homem apreende “impressivamente” (=sente) as coisas, os demais homens e a si mesmo, formalmente como conteúdos “reais”, como “realidade” (=inteligentemente), ou seja, como algo que tem seu conteúdo “de seu”, “em próprio”.

#  As coisas, os demais homens e ele mesmo, apreendidos impressivamente pelo homem formalmente como realidades (=inteligidos sencientemente), não só modificam o estado de tom vital que tem o homem em cada instante (=afetam), mas formalmente como realidades modificam esse estado como formalmente real (=sentimentalmente).

#  As coisas, os demais homens e ele mesmo, apreendidos impressivamente pelo homem formalmente como realidades (=inteligidos sencientemente), e modificantes formalmente como realidades do estado de tom vital dele como formalmente real (=sentimentalmente afetantes), impelem o homem a ter inexoravelmente que responder com uma ação (=tender) que consiste em querer realizar uma das possibilidades que lhe oferece a realidade (=volentemente).

=   É óbvio, portanto, que, em virtude de sua inteligência senciente, de seu sentimento afetante e de sua vontade tendente, o homem é uma realidade vivente que vive formalmente e constitutivamente desde, em e pela realidade enquanto tal, ou seja, que se enfrenta, formalmente como realidade, na sua vida, com as coisas, com os demais homens e consigo mesmo “formalmente” como realidades.

=   Daí que o homem seja um modo de realidade vivente que não consiste em mera “vida”, mas em “vida pessoal”: o homem é “pessoa”, é uma “realidade vivente pessoal”.

#  Efetivamente, em virtude de sua inteligência senciente, de seu sentimento afetante e de sua vontade tendente, o homem possui o seu conteúdo real “formalmente como realidade” e executa ações, tanto ativas quanto passivas, dirigidas a esse conteúdo real que possui “como formalmente real”.

#  Em outras palavras: o homem é “si mesmo formalmente enquanto realidade” e “atua por si mesmo e para se mesmo formalmente enquanto realidade”; quer dizer, “possui-se a si mesmo formalmente enquanto realidade”, “auto-possui-se formalmente enquanto realidade”.

#  Nisto, e não em outra coisa, consiste essencialmente o caráter “pessoal” da realidade vivente humana: o homem é “suidade”, é formalmente “sua” própria realidade vivente enquanto realidade, é uma realidade vivente formalmente “sua” enquanto realidade.

 

 

2.     A realidade vivente pessoal, que é o homem, está constituída por dois momentos essenciais diferentes mas não separados: personeidade e personalidade.

 

a.   “Personeidade” é o caráter constitutivamente pessoal da realidade vivente humana que acabamos de descrever; que o homem é “personeidade” significa exatamente -repetimos- que o homem é “suidade”, que é formalmente “sua” própria realidade vivente enquanto realidade, que é uma realidade vivente formalmente “sua” enquanto realidade.

b.   Agora bem, o caráter constitutivamente pessoal da realidade vivente humana, quer dizer, a sua personeidade, não é algo que o homem meramente tem e pronto; o homem tem inexoravelmente que “ir realizando “a figura concreta da sua personeidade”” em cada um dos seus atos vitais pessoais -por triviais que forem- ao longo de todo o seu decurso vital pessoal.

c.   Pois bem, essa “figura concreta da sua personeidade” que o homem inexoravelmente vai realizando em cada um dos seus atos vitais pessoais ao longo de todo o seu decurso vital pessoal, é a “personalidade” do homem; o homem, inexoravelmente, em cada um dos seus atos vitais pessoais -por triviais que forem- vai realizando a sua personalidade, que dizer, “vai configurando concretamente”, dum modo ou de outro, a sua personalidade.

=   Com efeito, ao executar cada um de seus atos, o homem não faz só uma coisa, mas unitariamente duas.

#  Primeiro, em cada ato que executa, o homem, obviamente, realiza o conteúdo concreto desse ato: fala, corre, dorme, come, insulta, etc.

#  Segundo, unitariamente, ao realizar o conteúdo concreto de cada um desses atos que executa, o homem está fazendo algo muito mais grave: vai configurando a sua personalidade.

+   Seria um gravíssimo erro, com efeito, pensar que os atos do homem consistem meramente em pôr fora de si, por assim dizer, uma série de conteúdos reais, por exemplo, palavra dita, trajeto recorrido, dormição dormida, alimentos comidos, insultos proferidos, etc.

+   Os atos do homem não consistem meramente nisso; o alcance decisivo dos atos do homem está em que, neles, o homem, inexoravelmente, vai configurando definitoriamente (não definitivamente, enquanto tiver vida) a sua própria realidade vital-pessoal, quer dizer, vai realizando a sua personalidade.

=   Precisamente em virtude deste segundo momento, os atos do homem são constitutivamente vitais e pessoais.

#  São vitais, porque, ao realizar o conteúdo concreto de cada ato seu, o homem o realiza dirigido formalmente ao “conteúdo” real que ele “possui”; ou seja, em seus atos, o homem está sendo “si mesmo” (autós) e está atuando por si mesmo e para si mesmo; em outras palavras: “está possuindo-se a si mesmo”, está “auto-possuindo-se”, quer dizer, está vivendo, está atuando vitalmente.

#  São pessoais, porque, ao realizar o conteúdo concreto de cada ato seu, o homem não está sendo meramente “si mesmo” e atuando meramente “por si mesmo e para si mesmo”, mas, fundamentalmente, está sendo ““seu” próprio” si mesmo, quer dizer, ““sua” própria” realidade enquanto tal, e está atuando por e para ““seu” próprio” si mesmo, quer dizer, por e para ““sua” própria” realidade enquanto tal; em outras palavras: está possuindo-se como ““seu” próprio” si mesmo, como realidade formalmente “sua”, está auto-possuindo-se como si mesmo formalmente “seu”, como realidade formalmente “sua”, quer dizer, está vivendo “pessoalmente”, está atuando vital-“pessoalmente”.

=   Por isso, e não por outra coisa, o decurso vital do homem é formalmente “vida pessoal”, quer dizer, porque o homem, na execução de cada um de seus atos, autopossui-se configurando progressivamente a figura concreta da sua realidade vital-pessoal, ou seja, a personalidade de sua personeidade.

d.   Três considerações essenciais para entender bem o que estamos dizendo.

=   A personalidade da qual estamos falando é a figura concreta da realidade vital-pessoal do homem que ele vai configurando em cada um de seus atos ao longo de sua vida.

#  A personalidade da qual estamos falando não é questão de psicologia experimental ou de antropologia empírica, porque não consiste nos caracteres psíquicos que “emergem” do conteúdo real de cada homem, como, por exemplo, ser lerdo, agudo, explosivo, introvertido, medroso, inseguro, afetivo, etc.

#  A personalidade da qual estamos falando é questão de metafísica, porque consiste na figura concreta da sua personeidade metafísica que o homem inexoravelmente vai configurando em cada um de seus atos ao longo de sua vida, não só com esses caracteres psíquicos, mas com a totalidade da sua realidade psico-corpórea.

=   A personalidade da qual estamos falando é a figura concreta da sua realidade vital-pessoal “inteira” que o homem vai configurando em cada um de seus atos ao longo de sua vida

#  Poder-se-ia pensar, com efeito, que em alguns dos seus atos vitais pessoais, o homem configura traços espirituais dele, em outros, traços morais dele, em outros, traços psicológicos dele, em outros traços corpóreos dele, etc.

#  Pois bem, esse pensamento é perfeitamente quimérico.

+   O homem, com efeito, é uma prodigiosa “unidade sistemática” de notas diferentes (inclusive essencialmente diferentes) mas inseparáveis umas de outras, que abrange desde as suas notas bioquímicas mais materiais até as suas notas espirituais mais sublimes.

+   Esta “unidade sistemática” essencial da realidade humana, e consequentemente de cada um de seus atos, é algo que jamais há que perder de vista para não cair em erros de funestas consequências.

+   Por conseguinte, em todos e cada um dos atos do homem, intervém “todas e cada uma” das notas que constituem a unidade sistemática da sua realidade, ainda que não intervenham sempre ativamente nem da mesma maneira (o contrario também é perfeitamente quimérico).

-   Como vai-se pretender, por exemplo, que a inteligência dum homem intervenha ativamente no seu ato de respiração como o faz no seu ato de pensar qual movimento tem que fazer a continuação num jogo de xadrez?

-   Isso quer dizer que a inteligência não intervém em absoluto no ato humano de respiração? É claro que intervém: em ação passiva; a prova é que uma anomalia respiratória grave lesiona gravemente a capacidade intelectiva do homem e não só o seu cérebro.

-   A unidade sistemática da realidade humana pode ser comparada à unidade duma orquestra sinfónica que executa um concerto; acaso vai-se dizer que quando o metal faz silêncio é que não intervém?; é claro que intervém: passivamente; não esqueçamos que os silêncios são parte integrante essencial da música tanto quanto as notas.

+   Assim pois, que o homem em cada um de seus atos vai realizando a sua personalidade, quer dizer, a figura concreta da sua personeidade, consiste em que realiza a figura concreta da sua realidade vital-pessoal “inteira”, desde as suas notas bio-químicas até as suas notas espirituais.

-   Assim, por exemplo, quando um homem faz exercício físico, em determinadas condições que agora não vamos detalhar, não só se está configurando anatomo-fisiologicamente como uma realidade atlética, mas, unitariamente, se está configurando espiritualmente como uma realidade adoradora do corpo, moralmente como uma realidade exibicionista, etc.

-   A mesma coisa: quando um homem mergulha em profunda oração, também em determinadas circunstâncias que agora não vamos detalhar, não só se está configurando espiritualmente como uma realidade que acata, suplica e se refugia na divindade, mas, unitariamente, se está configurando anatomo-fisiologicamente como uma realidade relaxada, distendida, etc.

=   A unidade essencial personeidade-personalidade que constitui a concreta realidade vivente pessoal de cada homem faz que cada homem seja pessoalmente sempre “ele mesmo” mas nunca “o mesmo”.

#  Em virtude de sua personeidade, cada homem é pessoalmente sempre “ele mesmo”, porque a personeidade é algo que simplesmente se é, e que se é “mesmamente”; cada homem é sempre a mesma personeidade, quer dizer, é sempre “sua” mesma própria realidade vivente enquanto realidade.

#  Mas, em virtude de sua personalidade, cada homem jamais é pessoalmente “o mesmo”, porque a personalidade não é algo que simplesmente se é, mas algo que inexoravelmente cada homem vai realizando, modelando, fazendo, configurando (o verbo não importa agora) em cada um de seus atos vitais pessoais -por triviais que forem- ao longo de todo o seu decurso vital pessoal, desde o momento da sua concepção até a sua morte; inicialmente só acional-passivamente, depois acional ativo-passivamente.

 

 

 

B.  Em virtude de ser realidade vital pessoal, o homem está instaurado no cosmos e no mundo como uma realidade “relativamente absoluta”.

 

 

1.     Em virtude de ser realidade vital pessoal, o homem está instaurado no cosmos e no mundo como uma realidade “absoluta”.

 

a.   Efetivamente, o homem, como acabamos de descrever, é uma realidade formalmente sua (personeidade) e é ele mesmo quem configura concretamente (personalidade) essa sua realidade formalmente sua, em cada um dos seus atos ao longo de todo o decurso da sua vida pessoal.

b.   Agora bem, o homem, como toda realidade, está instaurado no cosmos, quer dizer, na unidade respectiva de todo o real, e no mundo, quer dizer, na unidade respectiva de todo o real formalmente enquanto real; em outras palavras: o homem é um momento do cosmos e do mundo.

c.   O homem, porém, não é um “mero” momento do cosmos e do mundo, quer dizer, não é, como diriam os clássicos, uma mera res naturalis (coisa natural) a mais, como o é uma pedra (aqui esta um dos erros das vias cósmicas para justificar intelectivamente a existência de Deus, como temos dito), senão que o homem é um momento do cosmos e do mundo mas, de certa maneira, “solto-de” o cosmos e o mundo, quer dizer, é uma realidade instaurada no cosmos e no mundo como realidade “ab-soluta” frente a toda outra e qualquer realidade do cosmos e do mundo.

d.   E em virtude do que? Precisamente em virtude de ser o homem uma realidade vital pessoal, quer dizer, em virtude de ser o homem uma realidade formalmente “sua” (personeidade) e de ser ele mesmo quem configura concretamente (personalidade) essa sua realidade formalmente sua, em cada um dos seus atos ao longo de todo o decurso da sua vida pessoal.

 

 

2.     Mas não nos façamos ilusões…; em virtude de ser realidade vital pessoal, “frente” ao real e “fundado” no real, o homem está instaurado no cosmos e no mundo como uma realidade só “relativamente” absoluta.

 

a.   O homem é realidade vital pessoal, quer dizer, é realidade vital formalmente “sua”, não em si mesmo e por si mesmo, ou seja, não de modo absolutamente absoluto (aqui está um dos erros das vias antropológicas para justificar intelectivamente a existência de Deus, como temos dito), mas formalmente “frente” a toda e qualquer outra realidade, ou seja, de modo só relativamente absoluto, de modo relativo a toda e qualquer outra realidade.

=   O homem é certamente uma realidade absoluta, quer dizer, uma realidade “soluta”, uma realidade “solta”.

=   Mas o homem é uma realidade absoluta, quer dizer, uma realidade “soluta”, uma realidade “solta”, sendo constitutivamente realidade “soluta-“ab””, “solta-“de”” toda outra e qualquer realidade.

=   Isso quer dizer que o homem não é uma realidade absolutamente absoluta, ou seja, soluta ou solta em si mesma e por si mesma, mas uma realidade relativamente absoluta, ou seja, soluta ou solta constitutivamente “de” (=relativamente-a) toda outra e qualquer realidade, portanto, “frente-a” toda outra e qualquer realidade.

=   Dito de outro modo ainda: o homem não é “em si mesmo e por si mesmo” um momento absoluto do cosmos e do mundo (não é absolutamente absoluto), senão que é “relativamente ao cosmos e ao mundo” um momento absoluto do cosmos e do mundo (é relativamente absoluto).

b.   Mais ainda: o caráter vital pessoal constitutivo (personeidade) do homem não é algo absolutamente absoluto, mas relativamente absoluto, porque emerge constitutivamente do real conteúdo concreto do homem.

=   O caráter vital pessoal constitutivo da realidade humana não é algo que repousa sobre si mesmo, quer dizer, não é algo absolutamente absoluto; isso é perfeitamente quimérico.

=   Com efeito, o caráter vital pessoal constitutivo da realidade humana é justamente isso: caracter constitutivo “da realidade humana”, quer dizer, repousa em, emerge de, o real conteúdo concreto do homem; em outras palavras, a personeidade do homem é o “modo” de realidade que emerge da “forma” de realidade em que o homem consiste, quer dizer, do real conteúdo concreto do homem.

=   Por isso temos salientado acima que aquilo que abre a realidade humana a ser realidade vital pessoal é justamente um momento do seu real conteúdo essencial: a sua inteligência senciente, o seu sentimento afetante e a sua vontade tendente, porque são as estruturas do seu real conteúdo essencial que abrem o homem às coisas, aos demais homens e a si mesmo formalmente enquanto realidades.

c.Tem mais: o homem realiza a figura concreta (personalidade) da sua realidade vital pessoal (personeidade), em cada um de seus atos, não de modo absolutamente absoluto, mas de modo relativamente absoluto, quer dizer, “com” o real, ou seja, com a realidade das coisas, dos demais homens e de ele mesmo, em definitiva: fundado constitutivamente no real.

=   O homem não realiza a figura concreta (personalidade) da sua realidade vital pessoal (personeidade), em cada um de seus atos, desde o nada, desde zero, por assim dizer (isso é quimérico), mas “com” a sua realidade concreta, que é aquela que é, “com” a realidade concreta dos demais homens que o rodeiam, digamos assim, que também é aquela que é, e “com” a realidade concreta das coisas do seu meio, que também é aquela que é.

=   Neste aspecto, é claro que o homem realiza sim a sua personalidade em cada um de seus atos, mas fundado constitutivamente no real, quer dizer, é claro que o homem é sim realidade absoluta, mas não absolutamente, senão relativamente, ou seja, constitutivamente fundado no real com o que realiza a sua personalidade.

 

 

3.     Justamente nesta problemática unidade de absolutidade e de relatividade em que consiste a realidade vital pessoal do homem radica o caráter de “inquietude” constitutivo da sua real vida pessoal.

 

a.   O homem pode estar inquieto na sua vida pessoal (e o está), por muitas coisas; mas, sob todas essas inquietudes vitais pessoais dele, palpita “a” inquietude radical da vida pessoal do homem: a “problematicidade do absoluto”, quer dizer, a problematicidade constitutiva do caráter absoluto da sua realidade vital pessoal.

b.   Essa problematicidade constitutiva do caráter absoluto da realidade vital pessoal do homem e essa consequente inquietude constitutiva da sua real vida pessoal consiste em que o homem, que é realidade absoluta em virtude do conteúdo da sua própria realidade, vê-se abocado, em virtude desse mesmo conteúdo da sua própria realidade, portanto queira ou não queira, a “ter que sê-lo relativamente” em três dimensões.

=   Primeira, o homem vê-se abocado, queira ou não queira, a ter que ser absoluto frente a toda e qualquer realidade, portanto, inclusive frente à sua própria realidade.

=   Segunda, o homem vê-se abocado, queira ou não queira, a ter que ser absoluto tendo que realizar a figura concreta da sua realidade absoluta fundado constitutivamente no real, ou seja, realizando-a “com” a realidade das coisas, dos demais homens e de si mesmo.

=   Terceira, o homem vê-se abocado, queira ou não queira, a ter que ser absoluto tendo que realizar a figura concreta da sua realidade absoluta em todos e cada um dos atos vitais pessoais do seu decurso vital pessoal inteiro.

c.   Daí que, em virtude dessa problematicidade constitutiva do caráter absoluto da sua realidade vital pessoal e dessa consequente inquietude constitutiva da sua real vida pessoal, o homem padece radicalmente a “fadiga” de ter que ser relativamente absoluto.

 

 

 

C.  Em cada um dos seus atos, ao longo de todo o decurso da sua vida, o homem inexoravelmente vai realizando a sua personalidade religado constitutivamente ao poder do real como último, possibilitante e impelente, quer dizer, à “deidade”.

 

 

1.     O homem configura concretamente a sua personalidade, em cada um dos atos de sua vida pessoal, fundado constitutivamente no real “enquanto real”.

 

a.   Temos dito, e é óbvio, que o homem configura concretamente a sua personalidade, em cada um dos atos da sua vida pessoal, “com” a realidade das coisas, dos demais homens e de si mesmo.

b.   Está claro, que este “com” não é um momento “relacional consecutivo” à realidade vital pessoal que o homem configura concretamente, mas um momento “respectivo constitutivo” dela; quer dizer, o homem configura concretamente a sua personalidade, “constitutivamente fundado em” a realidade das coisas, dos demais homens e de si mesmo.

c.   Isto quer dizer que o homem configura concretamente a sua personalidade em cada um dos seus atos com o “conteúdo” real das coisas, dos demais homens e de si mesmo; isto é óbvio; mas aquilo que quer dizer, radicalmente, é que o homem configura concretamente a sua personalidade em cada um dos seus atos com o conteúdo “real” enquanto tal das coisas, dos demais homens e de si mesmo.

=   O “conteúdo” real das coisas, dos demais homens e de si mesmo com o que o homem configura concretamente a sua personalidade, poderá ser este, esse, aquele ou aquele outro.

=   Mas com aquilo que o homem configura concretamente a sua personalidade é sempre a realidade enquanto tal, seja esta, essa, aquela ou aquela outra.

 

 

2.     O homem configura concretamente a sua personalidade, em cada um dos atos da sua vida pessoal, fundado constitutivamente no real enquanto real “como último, possibilitante e impelente”.

 

a.   Ao afirmar que o homem configura concretamente a sua personalidade “com” a realidade (das coisas, dos demais homens e de si mesmo) estamos expressando nesse “com” a unidade de três momentos dele: “em”, “desde” e “por”.

=   Em cada um dos seus atos, o homem configura concretamente a sua personalidade “em” a realidade em que está.

=   Em cada um dos seus atos, o homem configura concretamente a sua personalidade “desde” a realidade em que está.

=   Em cada um dos seus atos, o homem configura concretamente a sua personalidade “por” a realidade em que está.

b.   Em virtude disto, a realidade enquanto tal, fundado constitutivamente na qual o homem realiza a figura concreta da sua realidade vital pessoal, tem caráter de ser “última”, “possibilitante” e “impelente”, quer dizer, de ser o fundamento “último”, “possibilitante” e “impelente”, fundado constitutivamente no qual, o homem configura concretamente a sua personalidade em cada um de seus atos.

=   A realidade enquanto tal é aquilo “em” o qual o homem se funda “ultimamente” para realizar a figura concreta da sua realidade vital pessoal, em cada um dos seus atos; a realidade enquanto tal é assim o fundamento “último” do homem na configuração concreta da sua personalidade.

=   A realidade enquanto tal é aquilo “desde” o qual o homem está fundantemente “possibilitado” a realizar a figura concreta da sua realidade vital pessoal, em cada um dos seus atos; a realidade enquanto tal é assim o fundamento “possibilitante” do homem na configuração concreta da sua personalidade.

#  Todo ato vital pessoal do homem, no qual inexoravelmente realiza a figura concreta da sua realidade vital pessoal, é constitutivamente a realização, por parte do homem, dumas “possibilidades” que lhe oferece a realidade enquanto tal das coisas, dos demais homens e de si mesmo, em ordem precisamente a configurar concretamente a sua personalidade.

#  Daí que a realidade enquanto tal seja a fonte fundamental de todas as “possibilidades” que o homem tem de realizar a figura concreta da sua realidade vital pessoal em cada um dos seus atos.

=   A realidade enquanto tal é aquilo “por” o que o homem está fundantemente “impelido” a realizar a figura concreta da sua realidade vital pessoal, em cada um dos seus atos; a realidade enquanto tal é assim o fundamento “impelente” do homem na configuração concreta da sua personalidade.

#  Já dissemos antes que o homem, queira ou não queira, está inexoravelmente impelido a ter que realizar em cada ato dele a figura concreta da sua realidade vital pessoal, justamente em virtude do conteúdo essencial da sua própria realidade.

#  Agora completamos o que já dissemos: a realidade enquanto tal, não só de si mesmo, mas também dos demais homens e das coisas, impele inexoravelmente o homem, queira ou não queira, a ter que realizar em cada ato dele a figura concreta da sua realidade vital pessoal.

#  Em virtude disto, o ter que realizar em cada ato dele a figura concreta da sua realidade vital pessoal, não é só uma “possibilidade” que lhe oferece a realidade enquanto tal das coisas, dos demais homens e de si mesmo, mas uma “impelencia” forçosa e inexorável que lhe vem precisamente da realidade enquanto tal das coisas, dos demais homens e de si mesmo.

 

 

3.     O homem configura concretamente a sua personalidade, em cada um dos atos de sua vida pessoal, constitutivamente “religado” ao “poder” último, possibilitante e impelente “do real”, quer dizer, à “deidade”.

 

a.   Em virtude de ser o fundamento último, possibilitante e impelente da configuração concreta da personalidade do homem em cada um dos seus atos, a realidade enquanto tal das coisas, dos demais homens e de si mesmo, tem caráter de dominância, de domínio, de “poder” sobre o homem justamente na realização da figura concreta da sua realidade vital pessoal em cada um dos seus atos.

=   Esta dominância, este domínio, este “poder” da realidade sobre o homem, não é de caráter “causal” (algo sempre problemático e discutível) mas de caráter “fundamental”: o real enquanto tal tem “poder” sobre o homem justa e precisamente enquanto que é o “fundamento” último, possibilitante e impelente da realização pessoal dele.

=   O real não é causa do homem, mas estritamente “poder” sobre o homem: o real, enquanto fundamento último, possibilitante e impelente da realização da figura concreta da realidade vital pessoal dele, é dominante sobre o homem, domina o homem, tem poderio sobre o homem, é poderoso para o homem.

b.   Assim pois, o real enquanto tal, como fundamento último, possibilitante e impelente da realização da figura concreta da realidade vital pessoal do homem, em cada um dos seus atos, é “poder” sobre o homem, é “o poder do real”, quer dizer, o real como poder; é aquilo que chamaremos com todo rigor de “deidade”.

=   Chamamos de “deidade” a realidade enquanto poder último, possibilitante e impelente da realização da figura concreta da realidade vital pessoal do homem, em cada um dos seus atos, por dois motivos: porque o homem desde sempre, do modo que for, tem apreendido o poder da realidade como deidade, e porque o poder da realidade é a via que conduz à divindade, a Deus.

#  O termo “deidade”, ainda que a mais de um pensador secularista pareça-lhe tendencioso (problema dele!), qualifica com perfeita adequação não uma teoria ou um invento subjetivo do homem, mas o fato inconcusso do caráter de domínio, de poder, que tem a realidade mesma enquanto fundamento último, possibilitante e impelente da realização concreta da vida pessoal do homem.

#  Neste aspecto, a história das religiões é a progressiva apreensão humana das diversas e complexas dimensões da deidade, quer dizer, do poder do real, da realidade como poder: as diversas religiões monoteístas, panteístas e politeístas têm ido atribuindo as diversas dimensões da complexa estrutura da deidade a um Deus único, à divina ordem cosmo-moral do mundo ou a vários deuses, respectivamente.


+   A deidade é um poder “transcendente”: abrange todas as coisas e as transcende.

-   O homem tem expressado a transcendência do poder do real dum modo elementar mas estrito: mediante a ideia do alto, do “altíssimo”, porque tem ido inteligindo o poder do real como algo transcendente, elevando os olhos para o céu (não exclusivamente para a abóbada celeste, como nos uranismos dos quais fala Pettazzoni, mas amplamente a tudo aquilo que ela contém: astros [especialmente o Sol, que não só esquenta e dá vida, mas que o vê tudo], trovão, raio, etc.).

-   O homem tem expressado também a transcendência do poder do real mediante a idéia de “grandiosidade”, que é atribuída frequentemente, especialmente nas religiões politeístas, aos meteoros, ao trovão, ao raio, etc.

-   Finalmente, o homem tem expressado também a transcendência do poder do real mediante a ideia da “identidade com ele mesmo”; quase todos os cultos ao Sol apontam ao fato de que o Sol parece sempre idêntico a si mesmo.

+   A deidade é um poder “vivificante” que preside e regula cronologicamente os ciclos vitais: é um poder vivente que intervém ativamente na vida do homem; no seio das coisas, é o tempo vivo que vai regulando o curso métrico do tempo (khrónos) no qual vão configurando-se todas as coisas; por isso as religiões politeístas (especialmente nas culturas matriarcais) divinizam a Lua, que rege e regula os ciclos das estações, os ciclos fisiológicos, os ciclos da fertilidade, etc.; o poder do real apresenta-se em certo modo como algo cíclico que vai flutuando sobre todos os acontecimentos que constituem o nascimento e a morte das coisas; daí arrancou também a ideia do eterno retorno, do caráter cíclico do tempo.

+   A deidade é um poder “fontanal” das coisas, especialmente dos viventes, que as constitui mediante separação de formas a partir duma indiferenciação inicial de todas elas: nas águas, estão todas as coisas como fundidas; progressivamente, vão brotando delas com a sua forma própria; finalmente, por dissolução nas águas, todas as formas das coisas ficam abolidas; daí que as religiões politeístas tenham divinizado as águas; a idéia das águas vivas, dos rios sagrados e do oceano mesmo como divindade, emerge da apreensão do poder do real como fundidor e separador das formas das coisas.

+   A deidade é um poder “germinador” das coisas: as formas das coisas não só se separam umas das outras, mas se geram umas das outras; daí que as religiões antigas pensaram na divindade da Terra Mãe; nela, por germinação, vão nascendo as coisas umas das outras.

+   A deidade é um poder de “organização” das coisas, especialmente dos viventes: o universo não se apresenta como uma mera soma de coisas, mas como um organismo; os seres vivos não nascem de qualquer maneira, mas adscritos a uns pais, a uma determinada genealogia; esta dimensão do poder do real tem sido plasmada religiosamente, sobretudo, na divinização das árvores, às quais atribui-se a idéia de genealogia.

+   A deidade é o poder do “sucesso”: o poder do real tem o poder de garantir o sucesso no futuro; daí, por exemplo, as divindades agrárias nas culturas agrícolas, que sofrem sempre a incerteza das colheitas.

+   A deidade é o poder da “intimidade pessoal” que vincula os homens em famílias, tribos e nações: o poder do real afeta o homem na sua dimensão pessoal, é o mais nosso de nós mesmos, o mais íntimo de cada um.

-   Nas civilizações antigas, o mais íntimo de cada um está unido aos demais por vínculos familiares de sangue: assim aparecem os deuses familiares, as divindades das relações de família; daí também os nomes teóforos familiares nas antigas religiões, por exemplo, nas semitas: 'Abiyah (“Deus, meu pai”), 'Ammiel (“Deus, meu tio”), 'Ajiyah (“Deus, meu irmão”), etc.

-   Além disso, o mais íntimo de cada um está unido aos demais por vínculos tribais de sangue: assim aparecem os epônimos das diversas tribos e clãs: em Israel, Yahweh é o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, ou seja, um Deus de caráter tribal privado (não se trata dum totemismo, coisa que os semitas nunca têm tido, nem dum sentimentalismo, mas da expressão dum vínculo tribal transcendente); na Fenícia, os ba'al também têm, mais ou menos, esse mesmo caráter.

-   Finalmente, o mais íntimo de cada um está unido aos demais por vínculos de soberania nacional: assim aparecem divindades com caráter de rei (no mundo fenício e cananeu, Ba'al é 'Elimelek, [“meu Deus, rei”]; no AT, Yahweh é “Rei de Israel”); outras vezes, a divindade aparece como juiz soberano dos contratos (assim o Deus hindu Varuna que o vê tudo, que tudo o sabe e que, portanto, é o guardião de todos os contratos); a divindade aparece inclusive como soberano cósmico (assim 'Elohim  do AT ou o Ba'al Shamen [“Senhor do Céu”], ao que invocavam os judeus de Elefantina).

-   Contrariamente ao que diz E. Dhorme, historiador da religião de Israel, tudo isto não é só um mero sentimento de familiaridade do homem com Deus, mas algo perfeitamente estruturado segundo o esquema social desde o qual o homem descobre a estrutura do poder do real; a passagem da família à tribo, ao clã e à nação é, em certo modo, um descobrimento progressivo da riqueza do poder do real.

+   A deidade é um poder que “se cerne sobre a vida e sobre a morte”: o poder do real é um poder que domina os fatos cruciais da existência de toda coisa real, especialmente dos viventes, e, sobretudo, o seu nascimento e a sua morte; daí que, no nascimento, submetido às vicissitudes da concepção, tenha-se invocado divindades como Istar, na Babilónia, Astarté, na Fenícia, ou Venus, na Grécia e no mundo romano; no extremo oposto, estão as múltiplas divindades da morte.

+   A deidade é o poder que “dirige e defende a vida social”: o poder do real não só constitui a coletividade humana (como temos dito), mas a dirige e defende tanto na guerra quanto na paz; daí os deuses guerreiros (Indra, na religião védica; em Israel, Yahweh como Shabaot [“Deus dos exércitos”] e como Deus da guerra) e os deuses da paz (Jahweh caracterizado pela firmeza e pela fidelidade do seu pacto).

+   A deidade é o poder do “destino”: os gregos o chamaram de Moîra; os babilónios, de Nabû.

+   A deidade é o poder que “rege a justeza e a estrutura física e moral do cosmos”: o poder do real rege a unidade tanto física quanto moral do cosmos no qual entram também os homens: essa unidade físico-moral do cosmos os gregos chamaram-na de Díke, e os Vedas, de Rta;  estas expressões significam “justeza” e não só justiça, porque abrangem tanto a justiça moral quanto o ajustamento cósmico.

+   A deidade é um poder “sagrado e sacralizante”: o poder do real é um poder que tudo o faz; precisamente por isso a divindade é sagrada e sacralizante, e por isso a realidade inteira (e especialmente o homem) está destinada a ela e se entrega a ela; daí que, em algumas religiões, o sacrifício, fazer o sagrado (sacrum facere), tenha sido personificado como a entidade suprema (assim, por exemplo, a identidade de atman com brahman na especulação brahmânica).

+   A deidade é um poder “moral”: no mundo greco-romano, em época tardia, o poder do real absorveu também as virtudes morais; daí que aparecessem as divindades da Fidelidade, da Fortaleza, da Oportunidade, etc.

+   A deidade é um poder que “tudo enche e que abrange todos os tempos”: por isso, em algumas religiões, o poder do real adquire caráter de espaço, não no sentido do espaço físico, mas de atmosfera que tudo o enche (o cristianismo mesmo fala da imensidade de Deus; os iranianos falam de Deus como Zwasa, que é justamente a atmosfera; encontramos ressonâncias desta dimensão do poder do real nada menos que no próprio Newton, quem chamava o espaço de “sensório divino”...).

+   A deidade é um poder perdurante: o poder do real perdura sempre em perfeita perenidade, é tempo indefinido (assim, no Irã, Zrvan akarana; na Grécia, o àpeiros khrónos; em Israel, El olam, Deus para sempre, eterno).

=   A deidade não é nada separado, fora, aparte ou por cima da realidade, mas a realidade mesma enquanto domínio, enquanto poder último, possibilitante e impelente da realização da figura concreta da realidade vital pessoal do homem, em cada um dos seus atos.

c.   Que o homem, em cada ato, configura concretamente a sua personalidade fundado constitutivamente no real enquanto tal, como poder fundamental último, possibilitante e impelente, ou seja, como deidade, consiste exatamente em que o homem, constitutivamente, está “fisicamente religado” ao poder do real, à deidade na sua realização vital pessoal.

=   Certamente, a deidade, o poder do real, não é uma espécie de “força física” que atua sobre o homem ao modo da gravidade ou do electromagnetismo; seria grotesco.

=   Porém, por tudo o que temos dito, é mais certo ainda que a deidade, o real enquanto poder, é rigorosamente um “poder físico” sobre o homem, quer dizer, que o real é “fisicamente” (e não intencionalmente, psicologicamente, subjetivamente, moralmente, ou coisas semelhantes) poderoso, dominante, sobre o homem; e isto, ao menos, por dois motivos:

#  Primeiro, porque é um ato rigorosamente físico cada um dos atos nos quais o homem unitariamente realiza uma determinada ação e a figura concreta da sua realidade vital pessoal, fundado constitutivamente na deidade, no poder do real.

#  Segundo, e sobretudo, porque a deidade, quer dizer, a realidade enquanto tal das coisas, dos demais homens e de si mesmo, em cujo poder se funda constitutivamente o homem para realizar a figura concreta da sua realidade vital pessoal, é rigorosamente física.

=   Por conseguinte, o homem, constitutivamente, está fisicamente religado à deidade, ao poder do real na sua realização vital pessoal.

#  Certamente o homem está fisicamente “ligado” ao poder do “conteúdo” real das coisas, dos demais homens e de si mesmo, na configuração concreta da sua personalidade, em cada um dos seus atos; isso o vê qualquer um.

#  Mas -e isto é o fundamental da questão- unitariamente e radicalmente o homem está fisicamente “re-ligado” à deidade, ao poder do conteúdo “real” das coisas, dos demais homens e de si mesmo, na configuração concreta da sua personalidade, em cada um dos seus atos; quer dizer, o homem, constitutivamente, está “fisicamente “religado”” à deidade, ao poder do real na sua realização vital pessoal; isto é aquilo que era preciso ver.

=   Nisto consiste a religação do homem à deidade, ao poder do real: a realidade é o poder fundamental último, possibilitante e impelente, religado constitutivamente e fisicamente ao qual, o homem realiza a figura concreta da sua realidade vital pessoal, em cada um dos seus atos, ao longo de todo o decurso de sua vida pessoal; em outras palavras: o homem se realiza concretamente como pessoa só religado à deidade, de tal modo que a sua constitutiva religação à deidade constitui nada menos que a “fundamentalidade” da realidade vital pessoal do homem.

#  A religação do homem à deidade não é um mero vínculo a mais dele, nem muito menos uma espécie de sentimento de dependência do real, mas é, nada menos, que a sua versão constitutiva e formal à “fundamentalidade” de toda a sua vida pessoal.

#          Além disso, o homem não está religado à deidade neste ou naquele aspecto dele, mas em todas e cada uma das dimensões da sua realidade vital pessoal, porque, como antes dissemos, em cada um dos seus atos, por trivial que for, o homem configura concretamente todos e cada um dos momentos da sua realidade vital pessoal, desde os bioquímicos aos espirituais.

 #         Portanto, a religação do homem à deidade é, nada menos, que a “raiz” mesma, o mais radicalmente fundamental, da realidade vital pessoal do homem; daí que a religação do homem à deidade não é nem algo meramente cósmico nem algo meramente antropológico (só que um pouco mais “completo”), mas algo unitariamente e radicalmente “antropológico-cósmico”.

+   A religação do homem à deidade seria algo meramente antropológico se consistisse numa “relação” do homem com a realidade das coisas, dos demais homens e de si mesmo, e, portanto, algo “consecutivo” às necessidades, à indigência, ou a algo semelhante, da realidade vital pessoal do homem.

+   Mas isso não é assim; a religação do homem à deidade é a estrutura “respectiva” homem-realidade na qual acontece nada menos que a fundamentalidade da realização concreta da realidade vital pessoal do homem, e, portanto, é algo “constitutivo” da mesma.

+   Alem disso, a religação do homem à deidade é a sua religação à realidade enquanto poderosa, ao poder da realidade seja das coisas, seja dos demais homens, seja do homem mesmo, portanto, de toda e qualquer realidade, seja cósmica seja humana, incluída, obviamente, a própria realidade vital pessoal do homem mesmo; por conseguinte, também por este lado, a religação do homem à deidade não é algo antropológico antiteticamente distinto do cósmico, mas o acontecer mesmo de toda realidade no homem e do homem em toda realidade.

 

 

 

D. A deidade, o poder do real, religado fundamentalmente ao qual, o homem realiza a figura concreta da sua realidade vital pessoal, em cada um dos seus atos, ao longo de todo o decurso de sua vida pessoal, se funda na realidade absolutamente absoluta que é Deus.

 

 

1.     A deidade, o poder do real, religado fundamentalmente ao qual, o homem realiza a figura concreta da sua realidade vital pessoal, em cada um dos seus atos, ao longo de todo o decurso da sua vida pessoal, é radicalmente o poder da realidade simpliciter.

 

a.   Quando distinguimos entre o poder do “conteúdo” real do real e o poder do conteúdo “real” do real, não estamos riçando o riço da sutileza conceptual, mas estamos “tocando” nada menos que o enigma constitutivo do real e, consequentemente, do poder do real; vejamo-lo.

b.   O enigma constitutivo do real

=   “Realidade” não é algo separado, fora, aparte ou por cima das coisas reais (não é algo assim como uma espécie de pélago em que bóiam as coisas ou de envoltório extrínseco de todas elas), mas é sempre e só um momento físico de cada uma das coisas reais, quer dizer, o momento físico de cada coisa real em virtude do qual essa coisa é “real”, ou seja, tem “de seu”, “em próprio” todas as notas do seu conteúdo concreto.

=   “Realidade” é um momento físico das coisas irredutível ao momento físico do conteúdo delas.

#  A “realidade” do conteúdo concreto de cada coisa (no sentido amplíssimo do termo “coisa”, ou seja, como simples sinónimo de “algo”), quer dizer, o momento de cada coisa em virtude do qual essa coisa é “real”, ou seja, tem “de seu”, “em próprio” todas as notas do seu conteúdo concreto, é um momento “físico” de cada coisa real mas essencialmente “irredutível” ao conteúdo concreto dessa coisa real.

#  Por exemplo, o conteúdo concreto duma “pedra” é um sistema complicadíssimo de notas tais como: sua composição físico-química, densidade, dureza, massa, temperatura, humidade, forma, etc.

#  Agora bem, a “realidade” desse conteúdo concreto duma “pedra” não é uma nota a mais desse sistema complicadíssimo de notas que constitui esse conteúdo concreto duma “pedra”; de fato, nenhum geólogo enquanto geólogo encontrará jamais no conteúdo concreto duma “pedra” uma nota física chamada de “realidade”; seria grotesco.

#  Quer dizer, então, que a “realidade” do conteúdo concreto duma “pedra” não é um momento “físico” dessa pedra, mas puramente e simplesmente um sutil conceito forjado por mentes febris?

#  Absolutamente não! Ainda que a “realidade” do conteúdo concreto duma “pedra” não seja uma nota física a mais desse sistema complicadíssimo de notas que constitui o conteúdo concreto dessa “pedra”, é o momento “físico” do conteúdo concreto dessa pedra, precisamente em virtude do qual essa pedra é pedra “real”, ou seja, tem “de seu”, “em próprio” todas e cada uma das notas do sistema de notas que constitui o conteúdo concreto dessa pedra.

#  A prova está nada menos em que, como temos dito acima, justamente esse momento físico de “realidade” das coisas e de si mesmo é o que constitui fisicamente o sentir humano em inteligência senciente, ao afecto humano em sentimento afetante e a tendência humana em vontade tendente, distanciando assim “essencialmente” o homem dos meros viventes, porque o abre a ser “vivente-pessoal” e a ter que configurar concretamente a sua vida pessoal.

+   Se assim não fosse, o homem não passaria de ser o mais complicado dos meros animais, quer dizer, diferente só “gradualmente” do resto dos meros animais.

+   Pois bem, obviamente, isso não é assim; ainda que mais de um despistado teime em considerar o homem simplesmente como o mais perfeito dos meros animais ou teime em viver como um perfeito mero animal, esse tal será sempre um “animal pessoal” que brinca (porque metafisicamente não pode fazer outra coisa) a considerarse o mais perfeito dos meros animais ou a viver como um perfeito mero animal.

#  O que acontece é que, enquanto o momento físico do conteúdo concreto das coisas pertence ao âmbito do óbvio e do ultra-óbvio delas, o momento físico da realidade das coisas pertence ao âmbito do “diáfano” delas, quer dizer, do mais que óbvio delas.

+   Quando apreendemos as coisas, topamos com um momento físico do seu conteúdo concreto, que constitui o âmbito do “óbvio” das coisas, quer dizer, o momento físico do seu conteúdo concreto que nos sai ao encontro sem mais (do latim ob-viare, “sair ao encontro”); por exemplo, se apreendemos uma pedra, topamos sem mais com a sua cor, com a sua forma, com o seu brilho, com o seu peso, com a sua temperatura, etc.

+   O outro momento físico do conteúdo concreto das coisas não pertence ao âmbito do óbvio, mas ao âmbito do “ultra-óbvio” delas; com efeito, para encontrar esse outro momento físico do conteúdo concreto das coisas (por exemplo, os eléctrons, nêutrons e prótons da pedra, a velocidade de suas moléculas, etc.), temos que ir “além” (ultra) do óbvio delas e busca-lo arduamente mediante a ciência ou outras atividades nossas.

+   Há, porém, um momento físico das coisas que não é nem óbvio nem ultra-óbvio, mas mais do que óbvio, óbvio demais, tão óbvio que carece dessa mínima opacidade necessária para que topemos com ele ou para que o encontremos mediante a ciência ou outras atividades; é o âmbito do “diáfano” das coisas, do mais profundo e radical delas: o momento físico de “realidade” do conteúdo concreto das coisas.

#  Assim pois, “realidade” é um momento físico das coisas distinto do conteúdo concreto delas: é o momento físico de cada coisa em virtude do qual cada coisa é “real”.

=   Agora bem, o momento físico de realidade de cada coisa real, apesar de não ser nada fora dela, “excede” do conteúdo concreto de cada coisa real, é “mais” do que concretamente é cada coisa real; em virtude disso, o momento físico de realidade de cada coisa real é “realidade simpliciter”.

#  Dito negativamente: o momento físico de realidade das coisas reais não se esgota naquilo que é concretamente cada uma das coisas reais, nem sequer naquilo que é concretamente a totalidade das coisas reais; o momento físico de realidade duma pedra, de uma árvore, etc. (e assim até enumerar a totalidade das coisas reais), não se esgota naquilo que é concretamente esta pedra, esta árvore, etc. (e assim até enumerar a totalidade das coisas reais).

#  Dito positivamente: cada coisa real concreta enquanto “realidade”, e inclusive a totalidade das coisas reais enquanto “realidade”, excede, ou seja, é “mais” do que concretamente é cada coisa real, e inclusive do que é concretamente a totalidade das coisas reais.

#  Isto quer dizer, negativamente, que o momento de realidade não se identifica-com nem se reduz-a o conteúdo concreto de cada coisa real ou da totalidade das coisas reais; positivamente, quer dizer que o momento físico de realidade de cada coisa real ou da totalidade das coisas reais, sem ser nada fora delas, é, porém, nelas, “realidade simpliciter”, quer dizer, a pura e simples “realidade” do real, “a” realidade enquanto tal do real.

c.   Em virtude disso, o poder do real, ao qual está religado fundamentalmente o homem na realização da figura concreta da sua realidade vital pessoal, em cada um dos seus atos, ao longo de todo o decurso da sua vida pessoal, é radicalmente o poder da realidade simpliciter.

=   Podemos dizer que cada coisa real, de alguma maneira, “veicula”, ou seja, leva fisicamente, no seu momento de realidade, a realidade simpliciter e o seu poder ao qual está religado constitutivamente e fisicamente o homem na realização da figura concreta da sua realidade vital pessoal, em cada um de seus atos, ao longo de todo o decurso da sua vida pessoal.

=   Por conseguinte, o poder físico do real, apesar de não ser um poder que está separado, fora, aparte ou por cima do poder das coisas reais concretas, é, porém, nelas, o poder físico da “realidade simpliciter”, quer dizer, da pura e simples “realidade” do real, de “a” realidade enquanto tal do real.

 

 

2.     A realidade simpliciter e o seu poder, ao qual está religado fundamentalmente o homem na realização da figura concreta da sua realidade vital pessoal, em cada um de seus atos, ao longo de todo o decurso da sua vida pessoal, está fundado em Deus, quer dizer, numa realidade absolutamente absoluta, diferente, mas não separada, das coisas reais e do seu poder, que está formalmente nelas constituindo-as como reais e como poderosas.

 

a.   O enigma da realidade e a consequente problematicidade da religação do homem ao poder do real.

=   Voltemos a considerar o enigma da realidade.

#  Em que consiste esse enigma do momento físico de “realidade” de cada coisa real, que, dum lado, é o momento em virtude do qual cada coisa concreta é “realmente” aquilo que é na sua concreção, e que, de outro lado, é um momento que é “mais” daquilo que cada coisa real é realmente em concreto?

+   Cada um destes dois aspectos do momento físico de “realidade” de cada coisa real, tomado por si mesmo, é algo inegável e não tem nada de enigmático: inegavelmente, cada coisa real é “realmente” aquilo que concretamente é; inegavelmente, ser realidade é “mais” que ser esta pedra, esta árvore, etc.

+   O enigma está em que, também inegavelmente, trata-se de dois aspectos dum único e mesmo momento físico, quer dizer, do momento físico de “realidade” de cada coisa real.

#  Poder-se-ia pensar que o enigma da realidade provem da torpeza e da falta de precisão e rigor das nossas ideias acerca da realidade; sem dúvida, há bastante disso, mas é falso que haja só isso; porque o enigma da realidade radica formalmente na estrutura constitutivamente ambivalente do momento físico de “realidade” de cada coisa real.

+   O momento físico de “realidade” de cada coisa real, imerso, dum lado, na coisa real, faz que cada coisa real seja “sua” irredutível realidade, e unitariamente, expandido, de outro lado, desde cada coisa real, faz que cada coisa real, enquanto real, seja “mais” daquilo que realmente é, quer dizer, que seja presença de “a” realidade nela.

+   Em outras palavras: cada coisa real, enquanto real, é essa enigmática e imbricada ambivalência que consiste em ser “esta” realidade concreta e presença de “a” realidade simpliciter.

=   Em virtude do enigma constitutivo da realidade, a religação do homem ao poder do real é constitutivamente problemática.

#  O caráter enigmático da realidade não é algo alheio ao poder do real; tudo pelo contrário: o poder do real é constitutivamente enigmático porque é o poder duma realidade que é constitutivamente enigmática.

#  Em virtude disso, precisamente porque a realidade e o poder do real são constitutivamente enigmáticos, o homem está fisicamente religado em forma problemática ao poder do real na realização da figura concreta da sua realidade vital pessoal em cada um dos seus atos.

b.   O homem tem a vivência concreta do caráter enigmático do real e do poder do real e, consequentemente, da problematicidade da sua religação ao poder do real, na “inquietude radical” que experimenta ao realizar a figura concreta da sua realidade vital pessoal em cada um dos seus atos, da qual temos falado antes.

=   A inquietude radical da vida pessoal do homem não consiste em na agitação que experimenta, por grande que for, ao sentir-se tantas vezes como que arrastado pelo turbilhão das vicissitudes da vida.

=   A inquietude radical da vida pessoal do homem consiste em algo muito mais grave e profundo: em que, até no menor dos seus atos, ao ter que configurar a sua realidade vital pessoal de modo relativamente absoluto, apoiado no poder do real como último, possibilitante e impelente, sente expressamente ou surdamente este duplo interrogante: O que vai ser de mim? O que vou fazer de mim?

#  A minha religação constitutiva à deidade, ao poder da realidade de mim mesmo, dos demais homens e das coisas, me leva “forçosamente” a ter que realizar a figura concreta da minha realidade vital pessoal em todos e cada um dos meus atos.

#  Isso significa que a minha religação constitutiva à deidade, ao poder da realidade de mim mesmo, dos demais homens e das coisas, me leva “fisicamente” (e não só intelectivamente, etc.) a ter que realizar a figura concreta da minha realidade vital pessoal em todos e cada um dos meus atos, e que me leva “problematicamente” a ter que fazê-lo, porque na minha religação à deidade experimento a problematicidade da minha realidade vital pessoal.

c.   Pois bem, a sua religação constitutivamente problemática ao poder último, possibilitante e impelente duma realidade que é constitutivamente enigmática, vivida concretamente na inquietude radical da sua vida, lança inexoravelmente o homem em busca dum fundamento que resolva essa problematicidade da sua religação ao poder dessa enigmática realidade na realização concreta da sua realidade vital pessoal em cada um dos seus atos.

=   Não é que o homem busque o fundamento que resolva a problematicidade da sua religação ao poder da enigmática realidade em virtude duma espécie de curiosidade intelectual ou de impulso sentimental ou de capricho volitivo.

=   É que o homem é lançado inexoravelmente a buscar o fundamento que resolva a problematicidade da sua religação ao poder da enigmática realidade, precisamente em virtude de que a realidade e o seu poder enigmáticos ao que está problematicamente religado, ao serem inteligidos sencientemente pelo homem como “realidade em para”, o “lançam fisicamente” a buscar intelectivamente o fundamento que resolva a problematicidade da sua religação ao poder da enigmática realidade.

d.   Lançado inexoravelmente o homem em busca dum fundamento que resolva essa problematicidade da sua religação ao poder dessa enigmática realidade na realização concreta da sua realidade vital pessoal em cada um dos seus atos, vai-se perfilando problematicamente no homem a idéia de Deus.

=   Vivendo pessoalmente, quer dizer, auto-possuindo a sua própria realidade em todas as suas dimensões, o homem faz o seu próprio si mesmo movendo-se religadamente na deidade, no poder do real.

=   Daí que, religado fundamentalmente à deidade na realização concreta da sua realidade vital pessoal em cada um dos seus atos, o homem experimenta problematicamente o poder do real como o seu fundamento último, possibilitante e impelente; o seu mover-se religadamente na deidade, no poder do real na realização concreta da sua realidade vital pessoal em cada um dos seus atos, é um mover-se problematicamente, porque o poder do real é constitutivamente enigmático.

=   Nesta experiência, que é experiência vital pessoal e, portanto, unitariamente individual, social e histórica, inexoravelmente vai-se esboçando no homem o perfil duma idéia de Deus, quer dizer, do fundamento da deidade, do poder do real, seja para afirmar a realidade de Deus, seja para negá-la, seja, inclusive, para ignorá-la, porque não sabe bem ainda se a deidade, o poder do real, força-lhe ou não a chegar a uma realidade divina como fundamento último, possibilitante e impelente dele.

#  Não se trata duma idéia de Deus meramente nominal arbitrariamente escolhida ou de uma vaguidade verbal mais ou menos solene.

#  Trata-se da idéia de Deus que problematicamente vai ganhando no homem um perfil cada vez mais preciso justamente na experiência da fundamentalidade religante da deidade, do poder do real, na realização concreta da sua realidade vital pessoal em cada um dos seus atos: Deus enquanto Deus, quer dizer, o fundamento último, possibilitante e impelente da deidade, do poder do real.

=   Por conseguinte, não é que o problema de Deus seja um dos problemas que o homem tem, ou que seja o mais transcendental dos problemas que o homem tem; é que o homem é constitutivamente “problema de Deus”.

#  Com efeito, o problema de Deus não concerne radicalmente ao homem enquanto “forma” de realidade, ou seja, ao conteúdo real do homem, quer dizer, àquilo que usualmente costuma ser chamado de “natureza” do homem, mas ao homem enquanto “modo” de realidade, ou seja, à “pessoa” que é o homem, quer dizer, à realidade vital pessoal do homem que ele realiza concretamente em cada um dos seus atos.

#  Daí que o problema de Deus não é um problema meramente intelectivo ou sentimental ou volitivo que o homem tem, ou um dos problemas que lhe coloca uma das suas funções vitais entre outras; o problema de Deus é nada menos que o problema da fundamentalidade da realização vital pessoal do homem, quer dizer, o problema do fundamento radical da deidade, do poder do real, ao qual o homem está constitutivamente religado na realização concreta da sua realidade vital pessoal em todos e cada um dos seus atos.

#  Religado fundamentalmente à deidade, ao poder do real, na sua realização vital pessoal, o homem, em todos e cada um dos seus atos, está unitariamente configurando concretamente a sua realidade vital pessoal e tomando posição, do modo que for (a maioria das vezes ignorando-o), frente ao fundamento (Deus) do fundamento (deidade) da sua realização vital pessoal.

+   O homem vive problematicamente a sua realidade vital pessoal, quer dizer, experimenta a inquietude radical da realização concreta da sua realidade vital pessoal: O que vai ser de mim? O que vou fazer de mim?

+   Pois bem, na vivência problemática, na experiência da inquietude radical da sua realização vital pessoal, o homem experimenta unitariamente (saiba-o explicitamente ou não) o problema de Deus: Em que se funda, ultimamente, possibilitantemente e impelentemente, a deidade, o poder da realidade das coisas, dos demais homens e de mim mesmo, que me religa fundamentalmente na realização concreta da minha realidade vital pessoal em todos e cada um dos meus atos?

#  Por conseguinte, a vida pessoal do homem é constitutivamente o desdobramento no homem do problema de Deus: a inexorável e constitutiva realização concreta da realidade vital pessoal do homem é fundamentalmente problema de Deus; em definitiva, a pessoa humana é constitutivamente problema de Deus.

e.   Lançados inexoravelmente em busca do fundamento que resolva a problematicidade da nossa religação à deidade, ao poder da enigmática realidade na realização da figura concreta da nossa realidade vital pessoal em cada um dos nossos atos, encontramos intelectivamente a Deus, quer dizer, à realidade absolutamente absoluta, diferente, mas não separada, das coisas reais e do seu poder, que está formalmente nelas constituindo-as como reais e como poderosas.

=   A deidade, o poder das coisas reais ao que estamos constitutivamente religados na configuração concreta da nossa realidade vital pessoal é o poder do conteúdo concreto de realidade que possuem essas coisas reais.

=   Porém, esse poder do conteúdo concreto de realidade das coisas reais não repousa sobre si mesmo, mas se funda no poder da realidade enquanto tal do conteúdo concreto das coisas reais, quer dizer, no poder da realidade simpliciter.

#  Com efeito, realidade é “mais” que toda e qualquer coisa real concreta, porque ser real é “mais” que ser realmente em concreto isto, isso, aquilo, etc.

#  A mesma coisa: o poder do real é “mais” que o poder de toda e qualquer coisa real concreta, porque o poder do real é “mais” que o poder real concreto disto, disso, daquilo, etc.

=   Agora bem, a realidade simpliciter e o poder dela não se fundam nas coisas reais concretas e no poder delas, porque todas as coisas são reais e poderosas, mas nenhuma delas nem a totalidade delas é a realidade simpliciter nem o poder dela; a realidade simpliciter e o poder dela também não se fundam em si mesmos, porque não são nada separado, fora, aparte ou por cima das coisas reais; em que se fundam, então?

=   Filosoficamente não há outra resposta: a realidade simpliciter e o poder dela, quer dizer, a deidade à qual estamos constitutivamente religados na realização relativamente absoluta da figura concreta da nossa realidade vital pessoal em cada um dos nossos atos, se funda numa realidade absolutamente absoluta, quer dizer, em Deus: só porque a realidade absolutamente absoluta, que é Deus, existe e a funda, existe a realidade simpliciter e o poder dela, quer dizer, a deidade à qual estamos constitutivamente religados na realização relativamente absoluta da figura concreta da nossa realidade vital pessoal em cada um dos nossos atos.

#  Deus está presente nas coisas reais constituindo-as formalmente como reais.

+   Deus não está presente nas coisas reais primariamente como a causa o está no seu efeito; Deus está presente primariamente nas coisas constituindo-as formalmente como reais.

+   Que Deus seja causa eficiente das coisas é, em todo caso, uma interpretação ulterior a partir de algo primário: da presença formal de Deus nas coisas.

#  Esta presença formal de Deus nas coisas reais consiste em que a realidade enquanto tal de cada coisa está constituída fundadamente “em” Deus.

+   Deus, a realidade absolutamente absoluta, não é uma realidade que está aí “ademais” das coisas reais e como oculta por trás delas; Deus é uma realidade que está nas coisas reais mesmas de modo formal fundante.

+   Portanto, Deus é absolutamente diferente mas não separado de cada uma das coisas reais e da totalidade delas, já que está presente formalmente em cada uma das coisas reais e na totalidade delas constituindo-as formalmente como reais.

#  Em virtude disso, toda coisa real é realidade intrinsecamente ambivalente fundada formalmente em Deus.

+   Por um lado, cada coisa real é a sua irredutível realidade concreta; por outro lado, cada coisa real, enquanto pura e simples realidade, é realidade simpliciter.

+   Pois bem, sem Deus “em” cada coisa real, quer dizer, sem a realidade absolutamente absoluta que está formalmente constituindo cada coisa como real, esta não seria puramente e simplesmente real, nem seria a sua irredutível realidade concreta.

+   A ambivalência da realidade e do seu poder consiste radicalmente na unidade deste duplo momento de cada coisa real: não é Deus e está formalmente constituída em Deus.

-   Por isso cada coisa real é “sua” realidade e é “momento da realidade simpliciter”.

-   Por isso cada coisa real é realmente poderosa e é momento do poder do real enquanto tal: é deidade.

#  Assim pois, a realização da figura concreta da realidade vital pessoal do homem, em cada um dos seus atos, se funda radicalmente em Deus, que está presente formalmente em cada uma das coisas constituindo-as como reais e como poder do real, como deidade à qual o homem está fisicamente religado na configuração concreta da sua realidade vital pessoal em cada um dos seus atos.

+   O homem, em cada um dos seus atos, por trivial que for, realiza a figura concreta da sua realidade vital pessoal fundado ultimamente, possibilitantemente e impelentemente na deidade, no poder da realidade das coisas, dos demais homens e de si mesmo.

+   Mas isso só é possível em virtude de que as coisas, os demais homens e o homem mesmo são constitutivamente “reais” em Deus; com efeito, sem Deus como momento formalmente constitutivo da realidade enquanto tal das coisas, dos demais homens e do homem mesmo, careceriam da condição primária e radical para ser deidade, para ser poder último, possibilitante e impelente da realização da figura concreta da realidade vital pessoal do homem, porque simplesmente não seriam “realidade”.

+   Em outras palavras: a realidade vital pessoal do homem se funda em Deus que está presente de modo formalmente constituinte naquilo que as coisas, os demais homens e o homem mesmo têm de reais.

+   Tanto é assim, que as coisas, os demais homens e a sua própria humanidade, ao darem ao homem a realidade como poder, como deidade ao fundamentar ultimamente, possibilitantemente e impelentemente a realização da figura concreta da sua realidade vital pessoal, em cada um dos seus atos, estão dando-lhe nessa realidade e nesse poder do real, nessa deidade, Deus mesmo.


f.    Assim temos justificado intelectivamente a existência da realidade de Deus, fundamentando-a não num raciocínio especulativo mas na intelecção da marcha efetiva da nossa física religação à deidade, ao poder do real na configuração concreta da nossa realidade vital pessoal em cada um dos atos do nosso decurso vital.

=   Obviamente, esta justificação intelectiva da existência da realidade de Deus não é uma “prova” ao estilo duma demonstração matemática.

=   É que não pode ser de outro modo; uma correta justificação intelectiva da existência de Deus é, e será sempre, ressonância viva da marcha efectiva da realização concreta da vida pessoal do homem fisicamente religado ao poder do real, à deidade.

#  Justificar intelectivamente a existência da realidade de Deus jamais será questão de montar raciocínios especulativos, mas de explanar intelectivamente, em discussão viva e às apalpadelas, a fundamentalidade da nossa experiência física de religação à deidade, ao poder do real, na realização concreta da nossa vida pessoal.

+   É uma explanação “intelectiva”, e, portanto, envolve necessariamente um momento de rigorosa fundamentação intelectiva.

+   Mas é a explanação duma experiência, duma provação física da realidade da fundamentalidade da nossa religação à deidade, ao poder do real, na configuração da nossa realidade vital pessoal, e, portanto, terá sempre essa ressonância viva de “problema”, própria do caráter da nossa vida pessoal.

#  Daí que Deus não seja primária e radicalmente causa primeira, motor imóvel, etc. (a um Deus assim ninguém jamais dirigiu uma oração; a célebre exclamação “Tu causa causarum miserere mei!” Ó tu, causa das causas, tende compaixão de mim!] carece formalmente de sentido teologal).

#  Deus é primariamente e radicalmente aquele a quem o homem acata porque é o fundamento “último” da sua realização pessoal, aquele a quem o homem suplica porque é o fundamento “possibilitante” de todas as possibilidades que tem de realização pessoal, e aquele em quem o homem se refugia, porque é o fundamento “impelente” que força-lhe à sua realização pessoal.

=   De tudo o que temos dito se desprendem duas consequências importantes.

#  Esta justificação intelectiva da existência da realidade de Deus só resulta completa no desenvolvimento inteiro deste curso, que mostra o caráter inconcusso da experienciação física da realidade de Deus por parte do homem.

#  Esta justificação intelectiva da existência da realidade de Deus não é nem uma via cósmica nem uma via antropológica, mas unitariamente, e por elevação, “a via da realidade” a cujo poder estamos fisicamente religados na realização concreta da nossa realidade vital pessoal em cada um dos nossos atos.


III

 

DEUS EM SI MESMO

 

 

 

 

A.  Deus é essencialmente “realidade absolutamente absoluta”.

 

 

1.     A filosofia e a teologia clássicas entendem por “essência metafísica de Deus” o conceito primário e radical com o qual concebemos a Deus; pois bem, se ainda se quer falar de essência metafísica de Deus, há que dizer duas coisas:

 

a.   A essência metafísica de Deus não é ““ser” supremo”, mas, em todo caso, ““realidade” suprema”.

=   A identificação da realidade com o ser é uma grave conseqüência da aceitação da filosofia grega que realizou a ilegítima “entificação da realidade”.

=   Ser é sempre e só algo formalmente ulterior à realidade.

#  Antes de serem entes, e precisamente para poderem sê-lo, as coisas começam por terem realidade; dito de outro modo: as coisas têm “realidade” (têm “de seu”, “em próprio” todas as suas notas) e ulteriormente “são” (têm atualidade no mundo, quer dizer, estão no mundo, ou seja, na unidade de todas as coisas reais enquanto reais, como explicaremos melhor depois).

#  Talvez, um exemplo nos pode ajudar a entender isto.

+   No nascimento duma criança, se diz indistintamente: nasceu uma criança, uma criança foi dada à luz, uma criança veio ao mundo; pois bem, a expressão “nasceu uma criança” acena propriamente à realidade nova, chamada de criança, que teve origem; no entanto, as expressões “uma criança foi dada à luz” e “uma criança veio ao mundo” acenam propriamente ao ser dessa realidade nova, chamada de criança, que teve origem.

+   Agora bem, é obvio que nascer, ter origem (a constituição duma “realidade” nova) é formalmente anterior (não temporalmente anterior!) a ser dado à luz, a vir ao mundo (a começar a “ser”, quer dizer, a começar a estar no mundo, essa realidade nova).

=   Pois bem, a ilegítima entificação da realidade é gravissimamente ilegítima quando concerne à realidade de Deus, quando é entificação da realidade divina, porque o ser é algo que concerne só às realidades mundanais; portanto, Deus não é ser nem sequer orlado com o atributo da infinitude: Deus não é ipsum esse subsistens (o ser subsistente, o ente supremo, etc.).

=   Nós, seguindo a estrada aberta por Mário Vitorino (Deus não é ente [ón], mas anterior a todo ente [pro-ón]), Johann Eckhart (o ser não se encontra formalmente em Deus; nada daquilo que há em Deus tem razão de ente), etc., afirmamos que a essência metafísica de Deus não é ““ser” supremo”, mas, em todo caso ““realidade” suprema”.

=   Ainda que Deus formalmente não “é”, não podemos evitar ter que empregar continuamente (como temos feito e faremos inúmeras vezes neste curso) a expressão “Deus “é” isso”, “D